22.5.09

há como que um pássaro submerso,
um filho caçula afogado no rio de margens largas e de profundidade extrema,
algo de precioso e fresco perdido no abissal de minha íris

está algemado na pedra primeira da casa de infância,
confinado às águas turvas e sem cor,
grudado ao trinco no concreto do túnel que liga o olho ao cérebro

lá, perdidos por trás e por baixo de tudo,
como ramificações de tumor gelado,
a confundirem-se com sargaço verde,

o pássaro, o filho e a preciosidade,
encasulam-se com o fio de minha espinha dorsal,
mantendo-me eternamente ereta e hirta.

23.7.08

eu preciso

de uma vírgula

amiga



só pra me dizer que é necessário o que vem em seguida.
diga,
diga,
diga,

de toda tristeza que você traz,
se agora com sua ida,

sua dor junto a ele jaz.

16.7.08

nunca haveria de dizer um sim.
e se houvesse de concordar com algo, que fosse com um não.

tudo porque desconhecia o que era ser e poder
e ir e não voltar.

e quando finalmente estivesse morto, no caixão despachado,
alguém veria um sim a crescer entre as unhas roídas - agora roxas -
e então cortaria suas mãos para plantar num quintal bonito, de terra fértil e boa,
com fartura de água e sol generoso.

31.1.08

de cama
acometida da vida toda
hospedeira das possibilidades que esperam ser escolhidas
cada uma pedindo para comer um terço de minha história -
ou, as mais famintas, minha história inteira

sempre vivi com sentimento de pedaço que falta
e com o egoísmo de nunca ter perguntando
a quem quer que fosse, amigo ou desconhecido,
se lhe faltava algo também

agora me derramo gorda sobre as horas de preguiça e luxúria
e para cada pecado uma sentença cruel - por favor -
porque não me poupo de ser algo em dor,
algo em transe
e perigoso
algo que amedronta e ama descomedidamente
como soluço ininterrupto,
como febre que não passa
e leva à morte por brincadeira.

6.12.07

reconheço meu defeito: no fundo, poucas coisas me assustam. no fundo, no fundo, o que me assusta é o que não me assusta.

não que eu seja alheia à dor. mas em mim se precisa de muito para que eu saia do lugar. se precisa de muito para merecer meu descompasso. merecer meu desalento. porque meu desalento vem de dentro, como lava que corre embaixo do chão. então queima e leva tudo e petrifica o caminho e seca o ar. e é de mim que escorre quente e esvai.

o que me assusta é constatar que, na verdade, nada é perigoso. nada amedronta. que tudo o que há no mundo é cru e possível. e que a vida é feia mesmo, às vezes.

é quando meu desalento vira paz. e aceito a dor do mundo. e amo infinitamente tudo à minha volta. porque sou feita de amor apesar do peso das pedras. das rochas vulcânicas e da fumaça de cinzas que sufoca. porque amar é tudo o que resta. é o que faz a vida bonita mesmo, às vezes.

reconheço meu defeito: amar é tudo o que faço contra a evidência do inevitável e trágico, ou do evitável e cretino, ou do inesperado devastador. e estou em paz comigo por saber que a vida não perdoa. nunca.

14.11.07

rascunho #1

laço de pequim
porque não conheço pequim,
nem estive por lá.

pequim é coisa que desconheço e não sei,
assim como a cidade que moro e dela só sei o nome.

o que sei é apontá-la no mapa -
com o dedo acordado dizendo: "aqui fica são paulo" -
porque são paulo é a cidade qualquer que dorme num mapa -
e a cidade que dorme no mapa não é a mesma que ferve em mim.

não é são paulo,
não é pequim.

laço de pequim
porque apenas conheço pela certeza e geografia.
a matemática dos lugares
ou laço de sangue e açúcar,
tal como o laço de minha cidade
que corre livre num rio sujo.

o outro laço,
o de pequim,
é o que jogo de cima da ponte,
afrouxando o nó de minha aorta seca
que depois respira serena, elástica, viscosa.

16.5.07

"eita, mundo velho sem porteira"
é a frase que trago comigo,
como um molho de chaves velho
costurado ao meu umbigo.

então abro a porta surda,
pontilhada por meus dedos no ar,
revejo meu pai sereno -
como poucas vezes -
a resmungar:

"eita, mundo velho sem porteira!",
e tudo parece fazer sentido:
não há porta, não há janela,
nem tecido de mundo poído.